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Deixei Lisboa pelo Alentejo: 5 anos e 4 Lições que mudaram a minha vida.

  • Foto do escritor: Vânia Carranca
    Vânia Carranca
  • 27 de jan.
  • 4 min de leitura

criança a ver a vista de uma aldeia

A minha saída da cidade foi, acima de tudo, uma fuga. Fugia do tempo que corria depressa demais, da constante exigência de planeamento, da pressão do relógio. Fugia de uma sensação de prisão que se intensificou com a pandemia.


Chegar à aldeia foi como despertar para um sonho. O silêncio, o ritmo desacelerado, o sentimento de pertença. Os “bons dias” e “boas tardes” trocados com cada pessoa que passa, os sons da natureza a preencherem o espaço. O tempo continua a passar, mas aqui... parece abrandar. 


Nestes cinco anos, fui aprendendo valiosas lições. Cada uma delas ajudaram-me a construir uma vida mais leve, mais calma e com muito mais sentido.

 

1. Redefini o meu guarda-roupa: menos moda, mais simplicidade e autenticidade
blusa de malha artesanal

Aqui, o inverno e o verão são sentidos com intensidade. Acordamos com temperaturas negativas no inverno e enfrentamos mais de 40 graus no verão. 


Pelas temperaturas e pelo estilo de vida, a forma de vestir aqui é mais simples e prática. As roupas deixam de ser uma afirmação de estilo e de uma necessidade constante de seguir a moda, que corre rápido demais. Em vez disso, tornam-se aliadas do quotidiano, focando-se no conforto e na funcionalidade. 


Com o tempo, percebi que a roupa é uma verdadeira aliada para o meu bem-estar diário. Hoje visto-me de forma simples e funcional, sem a necessidade de corresponder a padrões ou ocasiões. Para mim, a prioridade é o conforto — tanto no movimento como no equilíbrio térmico que as peças me proporcionam ao longo das estações.


Prefiro tecidos naturais, duráveis e de qualidade, que permitem ao corpo respirar e acompanham o ritmo de uma vida simples. Não sinto necessidade de me vestir para impressionar, mas sim para viver em harmonia com o que sou e com o ambiente que me rodeia. A roupa tornou-se, assim, um apoio silencioso no meu dia a dia: prática, confortável e em sintonia com a vida tranquila que escolhi.

 

2. Ter menos opções é uma bênção disfarçada

Uma das grandes surpresas destes anos foi perceber o quanto ter menos escolhas pode ser libertador. Aqui na Aldeia nada nos falta — temos o essencial. Há mercearias, cafés, restaurantes, padaria e na cidade mais próxima supermercados e Lojas variadas.  Com menos variedade? Sim, e isso, está longe de ser um problema, tornou-se uma bênção.


A redução de opções simplifica o dia a dia. Menos tempo a decidir, menos energia mental desperdiçada. O foco volta-se para o que realmente importa. Percebi que não preciso de vinte marcas diferentes, nem de mil alternativas. Preciso apenas do suficiente — e isso, aqui, existe.


 

3.Redescobrir os sabores de antigamente é lembrar que a simplicidade tem sabor, história e sabedoria.

pão alentejano sobre saco de pano antigo

Comer como antigamente revelou-se para mim uma descoberta surpreendentemente simples, equilibrada e saudável. Não precisamos de buscar fórmulas mágicas para nos alimentarmos bem; é natural sabermos como comer — de forma intuitiva, respeitando o que o corpo pede e o que a terra oferece. Foi aqui, na aldeia, que reencontrei essa simplicidade. O contato com a terra, com as estações e com os sabores antigos despertou em mim uma nova escuta. Aprendi a confiar mais na minha intuição alimentar e a compreender que o equilíbrio não reside em restrições, mas sim numa relação harmoniosa com o que a terra nos dá, no tempo certo.


Aqui, os pratos ainda respeitam a sazonalidade, o que intensifica o sabor de qualquer refeição. Esperar pela época certa é como aguardar o momento exato em que a natureza decide oferecer o seu melhor — um gesto de paciência que é também um gesto de amor. Saborear uma sopa de tomate no verão, migas de espargos na primavera ou um a sopa de abóbora no outono é um prazer genuíno. Mais do que reaprender a gostar desses pratos, foi uma descoberta maravilhosa aprender a cozinhá-los com respeito pela sua história.


 

4.Respeitar os ritmos da terra e os ritmos da alma

Na cidade, as estações do ano sentem-se sobretudo pela mudança de temperatura. Mas aqui, na Aldeia, no meio da natureza, os ciclos do tempo revelam-se de forma muito mais subtil e profunda. São os cheiros que mudam no ar, as árvores que trocam de pele, as cores dos dias e dos campos que se transformam lentamente, como se a terra respirasse de outra forma a cada estação.


Viver em contacto com estes ciclos permitiu-me perceber que também nós os temos. Que somos profundamente influenciados pelas estações do ano, mesmo sem dar por isso. E que viver em equilíbrio com elas — escutando o que cada uma oferece e o que o nosso corpo pede em cada transição — é uma forma de respeito, por nós e pela natureza.


Uma manta quente, o lume aceso e um chá numa tarde chuvosa de inverno. Uma caminhada pelo campo numa manhã fresca de primavera. Uma janela aberta numa manhã quente de verão. São gestos simples, mas que carregam harmonia. Quando respeitamos o ritmo da natureza à nossa volta, torna-se quase impossível não querer respeitar também o nosso próprio ritmo interior.

 

Hoje, percebo que não foi apenas uma fuga — foi um reencontro. Com a minha essência, com a natureza, com o tempo vivido e não apenas contado. Este caminho pela vida na Aldeia transformou-me. E é sobre essas pequenas (grandes) descobertas que partilho contigo por aqui.

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